terça-feira, 15 de setembro de 2026

Venda de ‘canetas emagrecedoras’ cresce 41% no Ceará e responde por até 8,6% do faturamento de redes

O mercado de medicamentos agonistas de GLP-1, conhecidos popularmente como “canetas emagrecedoras”, tem crescido e se tornado mais diverso, ganhando espaço no faturamento das redes. Só no Ceará, a quantidade de unidades vendidas nas farmácias, em agosto de 2026, foi cerca de 41% maior que a registrada em janeiro. No começo deste ano, foram vendidas cerca de 17 mil unidades de medicamentos como Mounjaro (tirzepatida), Ozempic e Wegovy (semaglutida), Olire e Saxenda (liraglutida) e Trulicity (dulaglutida), indicados para o tratamento da obesidade e/ou do diabetes tipo 2. Esse número chegou a quase 24 mil em agosto, em uma variação de 40,76%. Entre janeiro e agosto de 2026, ao todo, foi registrada a venda de 160.409 unidades desses medicamentos no Estado, considerando diferentes apresentações e marcas. O volume equivale a 2,6% das quase 6,2 milhões de unidades vendidas no País no mesmo período. Os dados utilizados nessa reportagem foram levantados pela equipe de Negócios do Diário do Nordeste a partir da base sobre venda de medicamentos industrializados sujeitos à escrituração no Sistema Nacional de Gerenciamento de Produtos Controlados (SNGPC), da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Nesta análise, a reportagem considerou apenas os medicamentos injetáveis. As unidades do Rybelsus, versão em comprimido da semaglutida, não foram contabilizadas nestes cálculos. Além disso, o SNGPC não disponibiliza informações sobre o período entre 2022 e 2025, impossibilitando comparação com o ano anterior. O atual contexto desses medicamentos inclui um mercado com mais concorrência e redução nos preços, principalmente em relação à semaglutida, cuja patente no Brasil expirou em março deste ano. Canetas impulsionam faturamento das redes de farmácias Ainda assim, os agonistas de GLP-1 têm ganhado peso no faturamento das farmácias. Na operação consolidada de Pague Menos e Extrafarma, a categoria representa 8,6% do faturamento no primeiro semestre deste ano. No segundo trimestre de 2026, a companhia registrou crescimento de 9,3% e completou o 11º trimestre consecutivo de crescimento acima do mercado. Nesse desempenho, os medicamentos da classe dos agonistas de GLP-1 mantêm participação relevante, respondendo por cerca de um terço do crescimento registrado no período”, afirmou vice-presidente Comercial da Pague Menos, Walace Siffert. Na Rede Santa Branca, a participação passou de aproximadamente 2,9% no primeiro semestre para 3,2% atualmente. Nesse caso, o levantamento também considera os medicamentos à base de semaglutida em comprimidos. A reportagem questionou a Associação Brasileira de Redes de Farmácias e Drogarias (Abrafarma) sobre o tema, mas a entidade afirmou que ainda não dispõe de indicadores especificamente relacionados a essa categoria de medicamentos e, por isso, não iria se posicionar a respeito. Mounjaro lidera, mas Ozempic e Wegovy dobram vendas O Mounjaro (tirzepatida) corresponde a mais da metade (55,2%) das unidades vendidas neste ano no Ceará, enquanto Ozempic e Wegovy (semaglutida) respondem por 42%. Já Olire e Saxenda (liraglutida) e Trulicity (dulaglutida) têm participação menor nas vendas no Estado, respectivamente 2,5% e 0,3%. composição das vendas é semelhante à observada nacionalmente. Entre janeiro e agosto deste ano, foram vendidas 6.182.969 unidades desses medicamentos no Brasil, sendo 52,6% delas referentes à tirzepatida, 44,6% à semaglutida, 2,2% à liraglutida e 0,5% à dulaglutida. Apesar de o Mounjaro (tirzepatida) ainda corresponder à maior parte das vendas, Ozempic e Wegovy (semaglutida) ganharam participação ao longo de 2026. No Ceará, o número de unidades vendidas desses dois medicamentos passou de 5.695 em janeiro para 12.704 em agosto, alta de 123,1%. No sentido contrário, as vendas mensais do Mounjaro passaram de 10.941 para 10.490 unidades no mesmo intervalo, queda de 4,1%. Com isso, a composição das vendas mudou: a participação dele caiu de 64,4% em janeiro para 43,8% em agosto, enquanto a do Ozempic e Wegovy avançou de 33,5% para 53,1%. Agosto foi o primeiro mês do período analisado em que o Ozempic e Wegovy responderam por mais da metade das unidades vendidas no Estado. Esse movimento é observado pelas redes de farmácias consultadas pelo Diário do Nordeste, que relatam maior concorrência, redução de preços e redistribuição das vendas após a queda da patente da semaglutida no Brasil, em março de 2026. Walace afirma que a chegada de novos medicamentos à base de semaglutida tem ampliado a oferta e tornado o tratamento mais acessível. Com isso, o aumento do volume de vendas tem compensado a redução observada no preço unitário. Após o fim da patente, a rede registrou redução de cerca de 50% no preço médio dos produtos e avanço de 155% no volume de vendas. “A expansão do mercado tem contribuído positivamente para a categoria e para o nosso cliente”, avalia. Na Santa Branca, o relato também é de pressão sobre os preços e sobre as margens de comercialização. Segundo a empresa, o ticket médio desses medicamentos caiu de cerca de R$ 1,2 mil para R$ 800, redução de aproximadamente 33%, movimento atribuído à entrada de canetas nacionais no mercado. "A entrada de produtos com preços mais baixos também permitiu que consumidores que anteriormente não tinham acesso às apresentações de maior valor passassem a adquirir esses medicamentos nas farmácias”, pondera a empresa. Além disso, a empresa também destacou a contribuição dos Programas de Benefícios em Medicamentos (PBMs) e da maior competitividade de preços para esse movimento. “Atualmente já existem opções na faixa de aproximadamente R$ 400, dependendo do produto e da apresentação”, complementa. Novos medicamentos à base de semaglutida O Ozempic(semaglutida) foi aprovado no Brasil pela Anvisa em 2018, para controle do diabetes tipo 2. Nos anos seguintes, passou a ter o chamado uso off-label, ou seja, fora da indicação da bula, para a perda de peso. O Wegovy foi o primeiro medicamento à base de semaglutida aprovado no País para o controle da obesidade, em janeiro de 2023. Até a expiração da patente, os medicamentos à base da molécula registrados no País estavam vinculados à Novo Nordisk, responsável por marcas como Ozempic, Wegovy, Rybelsus e Poviztra. Com o fim da proteção patentária, outros laboratórios passaram a entrar nesse mercado com versões concorrentes, mediante aprovação da Anvisa. Desde então, a Agência já aprovou novos medicamentos, como Ozivy, da EMS; Zempneo, da Brainfarma; Semavy, da Cosmed; Orsema, da Ranbaxy; Seemasun, da Sun Farmacêutica; e Owozy, da Ávita Care. Em agosto, a Anvisa também aprovou uma versão genérica da semaglutida, da EMS; o Semaclique, medicamento similar da Germed; e o Yluméc, também da EMS e registrado como similar ao Ozivy. Mercado informal Os números analisados pela reportagem referem-se às vendas registradas em farmácias e drogarias privadas e, portanto, não dimensionam a circulação desses medicamentos fora dos canais formais. Uma estimativa da Scanntech, empresa de inteligência de dados para o varejo e a indústria, indica que esse mercado pode superar o volume comercializado formalmente. Segundo o estudo, 53,8% das doses de medicamentos à base de GLP-1 consumidas no País no primeiro semestre teriam origem no mercado informal, ante 46,2% provenientes do mercado formal. Ao somar o mercado formal à estimativa de consumo informal, a empresa calcula que o uso desses medicamentos cresceu 281% no primeiro trimestre de 2026 e 217% no segundo trimestre, na comparação com os mesmos períodos de 2025. No acumulado do primeiro semestre, a alta estimada chega a 244%. A estimativa é feita a partir da análise da evolução das vendas de seringas em farmácias, associando a série histórica ao consumo de insulina. No levantamento, a empresa utiliza o crescimento das vendas desse material acima da tendência esperada para o consumo de insulina como um indicador do uso de medicamentos adquiridos fora dos canais formais de comercialização. Créditos Gabriela Custódio, Repórter | Bruna Damasceno e Hugo R Nascimento, Editores de Negócios | Victor Ximenes, Coordenador de Jornalismo | Gustavo Pellizzon, Coordenador de Audiovisual | Ivila Bessa, Gerente de Jornalismo | André Melo, Gerente de Audiovisual | Gustavo Bortoli, Diretor de Jornalismo e Esporte | Shutterstock, Imagem usada na capa Fonte:Diário do Nordeste
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